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quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Olhar


Quem me conhece sabe que não minto e que, se o fizesse, os meus olhos me denunciariam. Tenho amigos cujo olhar evito, quando não quero que me leiam a alma. É que, nos meus olhos, conseguem ver todas as minhas alegrias e angústias, a minha raiva ou pena.
Há dias, estive com um amigo que não via há algum tempo. Logo que nos encontrámos, disse-me que eu estava diferente e melhor, porque “já não tens raiva nos olhos”. Achei piada e percebi que de facto mudei.
Mas é verdade, já não sinto raiva, já não passo os dias a dizer mal de tudo e de todos. Porque já não vejo razões para dizer mal. Estou em paz no novo sítio onde trabalho, onde uma emoção pode ser a que a seguir conto:
Anteontem, ia a descer a escada para ir lá abaixo fumar um cigarro sozinha … oiço um tropel de ferrraduras: era o Girassol, o macho cá da Quinta, que em vez de entrar para o estábulo quando o recolhiam à tarde, resolveu dar umas voltas a galope pela Quinta.
Aqui, um animal a correr à solta fora do prado é uma emoção forte…
É que não me enervo meeeeeesmo. Estou a ficar “zen”. Se Deus quiser, vou ficar mais saudável. (Quem quer uma chávena de chá de erva-príncipe?) E melhor pessoa, já agora...

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

RIR é mesmo importante

Espreitaram, e encontraram a casa escura, sombria, portadas quase fechadas. Ouvia-se música e alguém ali, melancolicamente, tentava gerir recordações e muitas histórias... Muito poucos se aventuraram a entrar. Mesmo os que o fizeram, sairam logo de seguida, encostando a porta sem fazer barulho , discretamente, para não incomodar, ou para evitar dizer aquelas coisas que se dizem quando alguém está triste.
Dias depois, de mansinho, entraram de novo. A casa tinha sido arejada, o sol entrava pelas janelas escancaradas. A dona da casa apareceu a rir.
Hoje, foi bom ouvir alguém dizer-me "obrigado" por ter voltado a provocar sorrisos aqui no "Sonho".
Eu é que agradeço. A sério.
Aos que passaram discretos, aos que entraram só para dar um beijo, aos que nem se aventuraram a mostrar-se, aos que estavam só à espera que passasse a onda para rirmos juntos outra vez, e que, agora sim, também me fazem rir, OBRIGADA.
Beijinhos :)

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Obrigada, M.

Morreu ontem o M.
Conheci-o há cerca de 15 anos e depressa passei a considerá-lo da família. Era uma presença calma, mas bem humorada. Durante anos, foi a minha companhia nas saídas da mesa para fumar um cigarro lá fora. Depois, adoeceu, e teve de deixar de fumar. Passei a ter "vergonha" de fumar à sua frente.
Vai fazer muita falta nas nossas reuniões de família.
Fica bem, M.
Agora não vais ter de tomar mais remédios, nem vais voltar a ter falta de ar.
Obrigada pelas nossas conversas sempre bem dispostas, e também pela palavra que me "ofereceste" este ano:
“encabrazinada”

*Nunca tinha ouvido esta palavra. Aprendi-a ontem com o M., e avisei-o que a ia adoptar. Além do mais, a expressão “p--- q—p----“ às vezes já não me alivia. (Escrevi isto em Fevereiro deste ano, aqui.)

quarta-feira, 23 de julho de 2008

“Não digas nada, dá-me só a mão.”

Nem sempre foi assim.



*O título deste post foi tirado da crónica "Migalhas" de António Lobo Antunes, publicada na Visão a 10-Mar-2008. Migalhas também teria sido um bom título.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Aconchegante

Sem desprimor para quem há tempos deu o prémio de “Blog Apaixonante” a este meu Vou pelo Sonho, quero deixar aqui, bem à vista, o que hoje recebi:
QUE CANTINHO ACONCHEGANTE ESTE BLOG.

Foi apenas um comentário ao post anterior, não um “prémio formal” daqueles que vão aparecendo por aí na blogosfera e que muitos põem em destaque. Li-o enternecida. Agradeço-o, como se acabasse de receber um presente valioso. O valor de um presente depende sempre de quem no-lo dá.

Gosto que as pessoas se sintam bem aqui. Gosto que venham aqui para se sentirem bem. Quero que se sintam em casa, aconchegadas. Disse-o no meu primeiro dia de blog, a 20 de Janeiro deste ano: “Esta casa é minha mas também é vossa e eu adoro receber os amigos”. E agradeci, à laia de discurso dos Óscares, a alguns amigos sem os quais este Sonho nunca se teria tornado real. Uma dessas pessoas foi precisamente quem hoje lhe chamou “cantinho aconchegante”.
Hoje só para ele, aqui fica outra vez, com um beijinho:
“Obrigada
- ao João, uma das pessoas que mais admiro - e ele sabe porquê, que há séculos insistia comigo para escrever, e mais recentemente para criar um blog.”

Se toda a gente fosse assim, este nosso cantinho que é o mundo podia ser muito mais aconchegante….


domingo, 1 de junho de 2008

Uma Criança que Precisa de Nós, em S. Tomé

Ora aqui está, finalmente, uma iniciativa meritória, neste Dia Mundial. Foi a Ana, na Porta do Vento, que ma apresentou hoje.
Quem, como eu, sente S.Tomé - o sorriso branquíssimo e a pobreza daquelas crianças, aquele paraíso lindo, verdíssimo - que me marcou como mais nenhum lugar - não pode deixar de fazer qualquer coisa. Agora então, depois deste desafio, não temos mesmo desculpa. Afinal, ajudar não custa nada. Comecemos ainda hoje.

Aqui fica o desafio:

Diocese de São Tomé

Apadrinhamento à distância


A sua ajuda poderá ter um grande impacto na vida de uma destas crianças



A sua participação ou pedido de informações deve ser
dirigida ao Bispo D. Manuel Santos, CMF

Via email para: manuelsantoscmf@hotmail.com

D. Manuel Santos CMFDiocese de São Tomé São Tomé e PrincipeTel +23 992 9505


Uma escolha de paz para o desenvolvimento

- No mundo, e em particular em São Tomé e Príncipe, muitas crianças são vítimas diariamente da marginalização, da fome, das doenças, da violência e da pobreza.

- Neste país falta o acesso à alimentação, à água potável, à assistência médica, à educação de base, faltam os direitos fundamentais do homem.

- A Diocese de São Tomé e Príncipe, com esta campanha de apadrinhamento à distância, tem-se empenhado em representar os mais necessitados do mundo.

- O apadrinhamento à distância é um grande esforço de solidariedade humana e de participação no desenvolvimento dos povos.

- O apadrinhamento à distância aproxima-o de uma criança, da sua família e da sua comunidade, torna-o um elemento activo e participante no desenvolvimento e no crescimento das comunidades em vias de desenvolvimento e permite-lhe colaborar para a sensibilização de muitas outras pessoas como você.

A sua participação é essencial

- Receberá um postal informativo e descritivo dos programas que implementamos, bem como uma fotografia da criança que adoptará à distância.

- Durante o ano receberá também duas mensagens da criança, por ocasião das épocas do Natal e da Páscoa, e um relatório anual sobre o trabalho desenvolvido no terreno.

Apadrinhamento à distância significa desenvolvimento

- Não pretendemos unicamente distribuir fundos destinados à aplicação em situações de emergência. Visamos o planeamento de um projecto que construa, no decorrer do tempo, um instrumento moral e humano sólido e uma estrutura para o desenvolvimento no interior da comunidade local, da criança à família.

- Uma vez individualizada uma área de intervenção seleccionada pelos nossos contactos locais, laicos ou missionários, planificamos em conjunto com as famílias, operadores e autoridades locais, as intervenções de emergência que se impõem, que fazem parte de um programa para combater a longo prazo as causas que estão na base da pobreza.

- Através do contacto com a criança sustentada à distância, o seu apadrinhamento contribuirá para proporcionar à criança a escolha de um futuro, apoiará a sua família e contribuirá para o desenvolvimento e para o bem-estar da comunidade em que se insere.

- Por estes motivos, os nosso programas não se limitam a fornecer bens materiais e estruturais, mas alargam-se à participação e envolvimento das comunidades locais no fomento do desenvolvimento, por forma a torná-las autónomo para agirem como interlocutores directos dos seus direitos combatendo as causas da pobreza.

Uma longa amizade à distância

- Porque combatemos a pobreza juntos, o seu papel será tão importante como o nosso,
- Ajudando uma criança e a sua comunidade, num dos países mais pobres do mundo

- Dando vida a projectos a longo prazo que garantam melhores condições de vida e o respeito pelos Direitos do Homem;

- Aproximando-se de uma realidade distante através da fotografia de 1 criança, das suas mensagens e de informações sobre o seu percurso escolar.
Agora, é só contactar o Bispo de S. Tomé. Vamos a isso!
...................................................................
ACRESCENTADO A 02 DE JUNHO:
Hoje logo de manhãzinha, tinha já no meu mail a resposta do Bispo D. Manuel. Embora na sua essência diga o mesmo, não é igual à que a Ana recebeu ontem. Acho muito importante sentirmos que a resposta é mesmo para nós, que não é "chapa quatro". Se tivesse dúvidas quanto a este projecto, ter-se-iam de algum modo dissipado agora, com a "pessoalização" desta resposta. Quero acreditar que, para este homem, também cada criança que pretende ajudar com a nossa ajuda é única e irrepetível.
Aqui fica:
"Agradeço a sua comunicação. Se conhece São Tomé sabe bem as carências que aqui se vivem no dia a dia. E as crianças são, sem dúvida, as mais afectadas. Por isso a iniciativa do apadrinhamento à distância é uma óptima maneira de contribuir para dar alguma possibilidade de uma vida melhor a uma criança. Para isso pedia-lhe que contactasse a CARITAS de Setúbal. É esta Instituição que está a coordenar esta iniciativa em Portugal. O contacto é: caritas.setubal@mail.telepac.pt Se houver mais alguma dúvida não hesite em contactar-me.
Que Deus a abençoe!
+ Manuel António Santos CMF"

domingo, 25 de maio de 2008

Eu, em 6 palavras (II), agora a sério! *

* Da primeira vez, apeteceu-me apenas brincar com quem me lançara o desafio.
Agora é a sério:
Preciso de ser sonhadora. Porque que a vida não é fácil, obrigo-me, quase sempre, a tentar ser feliz. Porque sei que sem os outros é ainda mais difícil, sou, o mais possível, filha, mãe, amiga. Porque que me magoam a estupidez, a arrogância, a injustiça, tento combatê-las por todos os meios ao meu alcance. Com os anos, aprendi que a cura de muitos males é, muitas vezes, o riso. O meu e o dos outros. Por isso, a última palavra que escolho é gargalhada.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Ai que Mimo!



O Zé Pedro comentou hoje pela primeira vez aqui. Como imaginam, fiquei radiante, e penso que isso seja visível no post anterior a este.
O que não mostrei foi como as saudades se me colaram à pele quase no mesmo instante.
Dei comigo a ver fotografias dele e não resisto a deixar aqui estas, que o mostram no seu Elemento!



É lindo, não é?
E eu não sou nada Mãe-Galinha, pois não?

Carta ao Meu Filho

Meu Querido,

Adorei quando me ligou a dizer que finalmente tinha comentado aqui. Acho que nunca tinha "aberto" os comentários ao meu blog com tantos "nervos". O que é que o meu filho lindo terá escrito?, pensava eu enquanto esta coisa ligava...
E agora aqui estou eu a tentar responder, depois de me ter comovido, como quando você era pequenino e fazia ginástica nas festas do colégio, ou como quando, no jantar dos seus 18 anos, sacou de um papel do bolso, e fez um discurso lindo!
AI C'ÓRGULHO NO MEU FILHO!
Pois é, Querido, eu sou assim: só não tinha percebido que havia uma Mãe diferente antes e depois do blog. Será? Mas adorei saber E como sabe, se calhar há muito tempo, gosto de sonhar. Por isso, acho que a inteligência está na procura das coisas que são importantes para nós. Como a Praia da Luz, que pode já não "ser nossa" como foi, mas que, por isso mesmo, se tornou importante, e por isso a procuramos.
Oooooops, és capaz de ter razão, não havia necessidade de enquadrar a Rocha Negra com as palmeiras, que são posteriores ao tempo da “nossa” praia, não é? E foi preciso dizer-me isso para eu me aperceber… da foleirada! Estás desculpado, porque, logo a seguir dizes que “não é conversa de cota” falar da erosão da falésia e antes tinhas escrito “um filho nem sempre tem oportunidade de ouvir a Mãe assim, nua e crua". Por isso tenho-me babado todo aqui no meu cantinho ao sol, a ler as histórias, as recordações, os pensamentos e devaneios da minha Mãe Querida.”
Então os bolos de Odiáxere voltaram a abrir à noite? Não sabia ou não me lembrava, mas, seja de onde for, adoro os bolinhos que trazes.
Também ficou com vontade de experimentar os cogumelos do Golfinho? Temos que lá ir.
Ó senhor quase biólogo marinho, escusava de achincalhar a sua-Mãezinha,-essa- santa,- benza-a-Deus, por causa dos PERCEBES… Pronto, é PERCEVES (Understands, no Verão (LOL))!!! Já PERCEVI!
Fico à espera do seu retorno ao universo bloguista! A sério!
Adoro-te, Miúdo!

Um beijo enorme da
Mãe

sábado, 8 de março de 2008

O cheiro do pão

Pão acabadinho de cozer... Um cheirinho delicioso. Pão acabadinho de chegar. Entrávamos na cozinha de manhã e sabíamos que o pão já lá estava à nossa espera.

Cheirava a pão... e a cavalo. Quem trazia o pão, de manhãzinha, para casa da avó, era o Sebastião. Por incrível que pareça hoje em dia, o Sebastião vivia na cocheira, embora a sua mulher e filhos morassem logo ali, ao virar de uma ou duas esquinas. Na altura, por incrível que pareça, era assim, e não me lembro de nessa altura alguma vez ter questionado isso. Ainda me lembro de ir ver os cavalos e olhar para o catre em que ele costumava dormir, coberto com uma manta lobeira, daquelas de papa, às riscas coloridas, que associamos aos campinos de antigamente.

O Sebastião orgulhava-se de nunca ter tomado banho e, quando uma vez o convenceram a ir à Nazaré numa excursão, ia-se sentindo mal ao ver tanta água de uma só vez.


Manhãzinha cedo, os cavalos davam por terminada a noite e começavam a bater com os cascos no chão e acordavam o seu companheiro de quarto, o Sebastião. Não sei se primeiro tratava dos cavalos ou ia à padaria buscar o pão para casa da sua "Senhora" num saco de pano, daqueles que hoje já só vemos na mão de alguma velhinha às compras.

Só sei que, quando eu acordava em casa da avó, na cozinha já cheirava sempre a cavalo. Por mais que nos choquemos hoje pelo facto de o homem dormir com os cavalos, porque era assim, e de se entregar a tarefa de lidar com o nosso pão de cada dia a alguém que sabíamos não ter as mínimas noções de higiene, o pão era maravilhoso, com aquele cheiro que lhe contagiava o sabor.

Há anos, numa noite à lareira depois de um pôr-do-sol regado a Alvarinho, e de um jantar caprichado, regado com um óptimo tinto, em que contávamos recordações de quando éramos crianças, esta história valeu-me uma "fúria" contra quem teve a lata de gozar comigo. Por isso não gozem agora...

E se alguém souber onde posso encontrar pão com aquele sabor, por favor avise-me. Não quero saber se escapou ao controlo sanitário da ASAE, e vou a correr comprar. Pode ser que consiga reaver uma sensação - pueril, talvez - da minha infância.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Fado

O som da guitarra portuguesa encheu a igreja desde os primeiros acordes do primeiro cântico, dando à Missa do casamento de ontem um cariz muito especial. Uma das músicas foi mesmo cantada como fado, e muitíssimo bem. À minha frente alguém comentou "apetece bater palmas". A mim também me apeteceu.

O fado entranhou-se em mim desde antes de nascer e toda a vida se ouviu e cantou fado na minha família. Recordo com imensa saudade os nossos serões depois dos jantares de família. Quando chovia de tarde, em vez de subirmos ao "nosso" Pinheirão ou jogarmos ao "mata" no pátio, lá íamos nós em correria escada acima, para a sala que era quase só nossa, para as cantorias. Passávamos horas naquilo e éramos felizes a cantar juntos. Era o tempo em que fumávamos às escondidas e éramos cúmplices. E era o tempo em que ainda éramos muitos, de todas as idades, e aquele "fado" nos bastava.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Elogio do trabalho

“Há no trabalho, segundo a natureza da obra e a capacidade do trabalhador, todas as gradações, desde o simples alívio do tédio às satisfações mais profundas. Na maior parte dos casos, o trabalho que as pessoas têm de executar não é interessante, mas ainda em tais circunstâncias oferece grandes vantagens. Em primeiro lugar, preenche uma boa parte do dia sem haver necessidade de decidir sobre o que se há-de fazer. … Os homens ricos mais inteligentes trabalham quase tão afincadamente como se fossem pobres, enquanto as mulheres ricas ocupam o tempo com um sem número de bagatelas e estão firmemente persuadidas de que tais bagatelas têm extraordinária importância para o mundo inteiro."

Bertrand Russell, in 'A Conquista da Felicidade'

Pois eu permito-me discordar de si, Mr. Russel. O que não faria se não trabalhasse… Juro-lhe que, se tivesse e-mail, lhe poderia mandar uma lista infindável de coisas em que ocuparia o meu precioso tempo de ócio. E também não concordo com a história de as mulheres ricas se ocuparem de bagatelas. Garanto-lhe que, se fosse rica e não tivesse de trabalhar, me dedicaria a actividades bem interessantes.

Concordo, sim, vá-se lá saber porquê, com Fernando Pessoa, que, além do mais é nosso, Português, e foi funcionário, muitos anos antes, da empresa onde eu tive o meu primeiro emprego. Ora veja o que ele disse a propósito do trabalho:

"A improbidade e ineficiência profissionais são talvez as características distintivas da nossa época. … A eficiência é menos complexa, hoje em dia. A ineficiência pode, por isso, passar facilmente por eficiência…"
Fernando Pessoa, in 'Heróstato'

É isto que eu vejo. Mas tenho de trabalhar. E fazer do trabalho, apesar de tudo o que vejo, de tudo o que me aborrece, me enerva ou me revolta, um modo de vida em vez de um modo de morte.

É por essa razão, que quando, como agora e por diversas razões, o trabalho de per si não me satisfaz, valorizo ainda mais o facto de ter à minha volta algumas pessoas fantásticas, que tornam menos longas as minhas horas no emprego.

São importantíssimas para mim coisas tão aparentemente distintas como a solidariedade e o humor.
Por isso, foi tão bom ter recebido há bocado, depois de ter passado o dia a dizer que me apetecia um bolo muito doce, cheio de creme, um SMS com este texto:
“Cara colega, acabei agora mesmo de saciar a sua vontade, comendo uma enorme fatia de bolo coberta com um enjoativo doce de ovos, mesmo prejudicando a minha saúde. Os sacrifícios que um colega não faz em prol da saúde dos outros…”

Não comi bolo, mas as gargalhadas que dei com a mesma vontade não engordam nem um bocadinho, e não aumentam o colesterol. Obrigada.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Filha da Mãe

Pois é. Uma pessoa não aparece um dia (ontem), e já barafustam. Desculpem, sim? Não deu.
Mas deu para ter gostado de saber que alguém sentiu a minha falta.
E posso explicar:

Ontem apanhei um enorme susto: Era a Maria ao telemóvel "Menina, venha depressa. A sua mãe não está bem." Voei para casa, aflita, depois de dizer: "Vou já para aí. Chame o 112."
Graças a Deus era dia de Maria cá em casa. A minha Mãe sentira-se mal logo depois de se levantar. Estava deitada na cozinha, com duas almofadas e uma manta que a Maria fora buscar. Estava muito branca e muito assustada, mas explicou-me o que acontecera. Logo a seguir, chegou o INEM, com dois miúdos, que foram amorosos com ela - até a puseram a rir - enquanto avaliavam a situação, e que a levaram para o hospital. Eu fui atrás, nervosa, a perdê-los nos semáforos.
Entrou na urgência de ambulância, sirene a tocar, tudo. Quando eu entrei, encontrei-a num corredor, numa cadeira de rodas, a falar com o rapaz do INEM. "Hoje não há triagem. Isso depende da equipa que está de serviço. Mas a minha colega está a falar com o médico, a seguir já vêem a senhora e agora, já cá tem a sua filha, já podemos ir embora."
A seguir, em vez de a chamarem, um segurança veio dizer que eu não podia estar ali e que, ou ficava a doente, ou íamos as duas para a sala de espera. Fomos.
Duas horas depois - 2 horas - a minha Mãe de cadeira de rodas, em roupão (porque o INEM não a deixou mudar-se antes de sair de casa), em jejum, ainda na sala de espera apinhada de gente. O Estado paga o transporte em ambulância, com sirene e tudo, para as pessoas chegarem depressa às urgências. O mesmo Estado deposita-as depois numa sala de espera mal cheirosa durante 2 horas…
Quase mais uma hora depois, finalmente, lá foi vista por um médico – depois de eu já ter ido à recepção barafustar, depois de ter ido perguntar ao médico da Triagem, que entretanto já começara a funcionar, o que justificava aquela demora, e depois de eu ter ligado a uma amiga, que tem uma amiga que tem alguém no hospital e que lá moveu influências…
Depois de o médico a ver, a minha Mãe ficou mais descansada, largámos a cadeira de rodas e foi vestir-se numa casa de banho. Muitos exames depois, voltámos para casa, sem saber quase nada, nove horas depois.
É mais um exemplo do país que somos.
O pior é que a Mãe é a minha.

Hoje fomos ao cardiologista dela, para que ele a visse. Afinal é uma virose. Mandou-a para a cama, em repouso. Está com febre, mas bem-disposta.

E agora eu estou a fazer de mãe. De filha da Mãe.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Pensar

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais

Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos


É por isso que hoje não vou pôr aqui mais nada.

Apenas isto:

Parar para pensar
Pensar em não parar
Pensar em parar de pensar
Pensar em não pensar
Pensar em parar
Parar de pensar.

Amanhã, pode ser que o sol esteja lá fora outra vez à minha espera.

domingo, 20 de janeiro de 2008

À laia de discurso dos Óscares

Obrigada

- às primas: à Madalena, que me transmitiu o bichinho, quando em Maio do ano passado começou a mostrar-se no seu Juro que tenho mais que fazer - e que ainda há pouco, pelo telefone, me ajudou a voltar a entrar aqui como dona da casa (só conseguia entrar pela porta da frente, mas eu queria mesmo era ir lá dentro, entrar pela porta de serviço, para arrumar minimamente as coisas antes de as visitas chegarem);
- à Ana, que abriu pouco depois a sua Porta do Vento, onde entretanto já encontrei amigos,e que, antes disso, tinha feito de mim a feliz proprietária da sua penúltima casa;
- ao João, uma das pessoas que mais admiro - e ele sabe porquê, que há séculos insistia comigo para escrever, e mais recentemente para criar um blog;
- à Filipa, minha querida sobrinha, irmã e amiga, a quem, sem avisar, "roubei" a fotografia que pendurei na entrada desta "casa", por parecer que foi feita para aqui estar;
- ao meu filho lindo e aos meus Pais fantásticos, que mais ainda do que todos os meus amigos, fazem de mim o que sou.

E pronto, agora vinha a cena das lágrimas, mas não me apetece...