Estou fechada em casa há 5 dias. Ao todo, estive fora, no máximo, 12 horas e 15 minutos: 9 horas no primeiro dia e 3 no segundo, 10 minutos no quarto e 5 minutos hoje, respectivamente no hospital, no médico, numa corrida à farmácia, e, finalmente para tomar um café e comprar o Expresso.
Ou seja, isto tem vindo a melhorar. Com a evidente diferença do teor da minha saída de hoje em relação às dos dias anteriores, posso ter esperanças de ir passear um dia destes.
O meu tempo tem sido passado a tratar da minha mãe, o que faço com muito gosto. Cházinhos, remédios, a cama, que é preciso refazer, esticar, ajeitar as almofadas… No entanto, tratar, neste caso, significa também ser uma dona de casa zelosa e eficiente: tratar das refeições, arrumar a cozinha, pôr roupa a lavar, estendê-la, apanhá-la, tirar a loiça da máquina, arrumar a loiça, arranjar o tabuleiro, etc, etc… et on recomence... Pelo meio de tudo isto, um destes dias, achei que as cortinas do quarto da minha mãe precisavam de ser lavadas. Para o quarto não ficar sem cortinas enquanto se lavavam, resolvi então lavar as do meu quarto, que são iguais. À noite, persianas fechadas, subi ao escadote – e até num escadote tenho vertigens, tirei as cortinas e substituí-as pelas já lavadas. E a minha Maria, que só volta na 5ª feira...
Quem nunca se queixou de trabalhar fora de casa? Quantas vezes desejámos ficar em casa sem fazer nada ?
Mas é possível ficar em casa e não fazer nada ?
Tenho pensado imensas vezes nestes últimos dias nas desgraçadas das donas de casa que têm de fazer tudo isto e muito mais, que não têm sequer Maria, que têm de tratar de tudo, e mais, muitas vezes, de uma ranchada de filhos, de maridos chatos, machistas, brutos, que não fazem nada em casa e ainda por cima as mal-tratam... Afinal, não é assim tão mau estar aqui. Podia ser bem pior.
E a minha mãe está melhor, graças a Deus.
Ah, é verdade. E ainda arranjei tempo para arrumar papelada que ameaçava ganhar vida própria cá em casa. Odeio papéis. Isto é, só gosto de alguns: cartas de amor e cartas de amigos (cada vez menos comuns por culpa dos e-mails), e papéis brancos ou de cores, intocados, daqueles em que apetece mesmo escrever. Odeio cartas de bancos, de seguradoras, da água e da luz e outras que tais. Em primeiro lugar, significam quase sempre despesas. Em segundo lugar, têm a particularidade fantástica de, na maior parte das vezes, dizerem coisas que o comum dos mortais não percebe à primeira. Já cheguei a ir a uma seguradora com uma carta que recebera de lá, pedir para ma traduzirem para português, dizendo que acho inadmissível que a linguagem utilizada seja tão estupidamente impenetrável. Sinto-me burra de cada vez que me escrevem assim. O que sentirá a minha porteira, que diz IMEN em vez de INEM, se receber uma carta daquelas?
A propósito de papéis, lembrei-me do meu trabalho. Aí sim, tenho de ter os papéis em ordem… Mas só vale a pena pensar nisso na próxima 4ª feira, porque 3ª feira é Carnaval e 2ª também não se trabalha. O patrão deu “ponte”. A empresa está muito bem e recomenda-se: não há défice nem problemas de produtividade.
Obrigada, senhor Dr., por eu não ter de gastar um dia de férias depois de amanhã.
E, já agora, se a empresa fosse sua, mesmo sua, e o senhor fosse mesmo o dono, também havia “ponte”?