quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Fado

O som da guitarra portuguesa encheu a igreja desde os primeiros acordes do primeiro cântico, dando à Missa do casamento de ontem um cariz muito especial. Uma das músicas foi mesmo cantada como fado, e muitíssimo bem. À minha frente alguém comentou "apetece bater palmas". A mim também me apeteceu.

O fado entranhou-se em mim desde antes de nascer e toda a vida se ouviu e cantou fado na minha família. Recordo com imensa saudade os nossos serões depois dos jantares de família. Quando chovia de tarde, em vez de subirmos ao "nosso" Pinheirão ou jogarmos ao "mata" no pátio, lá íamos nós em correria escada acima, para a sala que era quase só nossa, para as cantorias. Passávamos horas naquilo e éramos felizes a cantar juntos. Era o tempo em que fumávamos às escondidas e éramos cúmplices. E era o tempo em que ainda éramos muitos, de todas as idades, e aquele "fado" nos bastava.

Sou fumadora, mas não gosto de beatas




Ontem fui a um casamento. Não é das coisas de que mais gosto, mas lá fui, depois de me ter empiriquitado q.b.. Nestas coisas, é suposto trocar a camisola de gola alta quentinha e os jeans com que a gente se sente bem por atavios mais apropriados. E lá pus um vestido com que, apesar de tudo, não me sinto mal de todo.
No meio da festa, chegou o momento de ficar de caras com uma daquelas pessoas que só nos falam bem em sítios igualmente “bem”, ou se nos virem acompanhados com pessoas muito recomendáveis ou muito benzocas. A estes já só cumprimento se me falarem primeiro. Já não faço fretes, pelo menos destes.
A pessoa de quem falo, e a quem chamarei X, é uma mulher praticamente da minha idade, que há vinte anos se veste, penteia e comporta como a sua própria mãe, avó, etc.
Desta vez a ocasião era propícia e falou-me. Com um meio sorriso, supostamente civilizado, mas sem nunca olhar para mim. Os seus olhos, reprovadores, estiveram desde que me viu, enterrados no meu decote (que até nem era nada demais), como se eu fosse a própria encarnação do pecado.


Há mais de vinte anos, estava eu a viver em Londres, a minha mãe telefonou-me a dizer que umas primas afastadas iam lá e me levavam umas coisas de que eu tinha saudades. Fui, como sempre andava, enchouriçada em camisolas, de calças e botas, anourak e cachecol, encontrar-me com elas numa sala de espera de um consultório, em plena Harley Street. A X era uma delas e fora a Londres, por lhe cair cabelo, para uma consulta com o dermatologista do príncipe de Gales! Estava de saltos altos e casaco beige, de pelo de camelo, e de colar de pérolas. Tal e qual como poderia estar se fosse da idade das nossas mães…

A X faz um ar bonzinho, e põe os olhos em riste, quando não está a olhar para outra coisa qualquer, como um decote. É daquelas pessoas que há muitos anos teve vergonha de mim, quando não aguentei um casamento horrível e assumi a separação. A X tem um marido nobre, muito feio e com uma cara daquelas que nos podem fazer lembrar galinhas ou chapas onduladas. São iguais… considerando que os títulos são dele o dinheiro dela… O facto de só terem um filho – que, obviamente, estuda num colégio da Opus Dei – só pode dever-se a uma de duas coisas: ou são tão estúpidos que ainda não perceberam que a “Obra” promove as famílias numerosas, ou vivem um casamento de fachada e sem sexo.

É por estas e por outras que eu não gosto de beatas. Fazem-me ficar completamente “encabrazinada”*.


*Nunca tinha ouvido esta palavra. Aprendi-a ontem com o M., e avisei-o que a ia adoptar. Além do mais, a expressão “p--- q—p----“ às vezes já não me alivia.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Elogio do trabalho

“Há no trabalho, segundo a natureza da obra e a capacidade do trabalhador, todas as gradações, desde o simples alívio do tédio às satisfações mais profundas. Na maior parte dos casos, o trabalho que as pessoas têm de executar não é interessante, mas ainda em tais circunstâncias oferece grandes vantagens. Em primeiro lugar, preenche uma boa parte do dia sem haver necessidade de decidir sobre o que se há-de fazer. … Os homens ricos mais inteligentes trabalham quase tão afincadamente como se fossem pobres, enquanto as mulheres ricas ocupam o tempo com um sem número de bagatelas e estão firmemente persuadidas de que tais bagatelas têm extraordinária importância para o mundo inteiro."

Bertrand Russell, in 'A Conquista da Felicidade'

Pois eu permito-me discordar de si, Mr. Russel. O que não faria se não trabalhasse… Juro-lhe que, se tivesse e-mail, lhe poderia mandar uma lista infindável de coisas em que ocuparia o meu precioso tempo de ócio. E também não concordo com a história de as mulheres ricas se ocuparem de bagatelas. Garanto-lhe que, se fosse rica e não tivesse de trabalhar, me dedicaria a actividades bem interessantes.

Concordo, sim, vá-se lá saber porquê, com Fernando Pessoa, que, além do mais é nosso, Português, e foi funcionário, muitos anos antes, da empresa onde eu tive o meu primeiro emprego. Ora veja o que ele disse a propósito do trabalho:

"A improbidade e ineficiência profissionais são talvez as características distintivas da nossa época. … A eficiência é menos complexa, hoje em dia. A ineficiência pode, por isso, passar facilmente por eficiência…"
Fernando Pessoa, in 'Heróstato'

É isto que eu vejo. Mas tenho de trabalhar. E fazer do trabalho, apesar de tudo o que vejo, de tudo o que me aborrece, me enerva ou me revolta, um modo de vida em vez de um modo de morte.

É por essa razão, que quando, como agora e por diversas razões, o trabalho de per si não me satisfaz, valorizo ainda mais o facto de ter à minha volta algumas pessoas fantásticas, que tornam menos longas as minhas horas no emprego.

São importantíssimas para mim coisas tão aparentemente distintas como a solidariedade e o humor.
Por isso, foi tão bom ter recebido há bocado, depois de ter passado o dia a dizer que me apetecia um bolo muito doce, cheio de creme, um SMS com este texto:
“Cara colega, acabei agora mesmo de saciar a sua vontade, comendo uma enorme fatia de bolo coberta com um enjoativo doce de ovos, mesmo prejudicando a minha saúde. Os sacrifícios que um colega não faz em prol da saúde dos outros…”

Não comi bolo, mas as gargalhadas que dei com a mesma vontade não engordam nem um bocadinho, e não aumentam o colesterol. Obrigada.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Distracções (III)

Lembram-se de eu ter dito que aquilo podia ter acontecido comigo? Pois.
Ontem à hora do almoço, debaixo de uma valente chuvada, chapéu-de-chuva aberto, dirigi-me ao carro. De longe vi-o. Parecia um barco no meio de um rio. Tentei chegar-lhe perto, evitando sem sucesso pôr os pés dentro de água. “É melhor ir pelo outro lado, parece estar menos mau”, pensei. Tentando, com a única mão disponível, salvar a baínha de ao menos uma das pernas das calças, lá fui eu tchloc, tchloc, caminhando com cuidado pelas águas sujas do chão. Chegada junto ao carro, já de comando na mão, fui fechando o chapéu-de-chuva enquanto tentava abrir o carro. E o carro, nada. Nada de piscas, “Isto só a mim…”, nada de abrir portas, “M….”, nada de nada. “Bolas, isto agora não funciona. Era só o que faltava.”
Mas afinal não era só o que faltava. Ainda havia mais. Aquele carro, não só não era o meu, e era muito diferente, quer na cor quer no modelo, como o meu, uns vinte metros mais à frente, parecia rir-se para mim.
E foi também a rir que saí dali, atravessei o “rio” imundo, já sem segurar nas calças e sem me cobrir da chuva que continuava a cair, e fui até ao meu carrinho quase e correr.
O meu carro estava num sítio completamente… sem água à volta. E eu entrei nele, um pinto, e fui a casa mudar de roupa e de botas!
O que vale é que eu me acho graça, senão não teria tido piada nenhuma!

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Ai Represas, Represas...

O momento da Ana, trouxe-me doces recordações de quando ouvia os Trovante até à exaustão. O Luís Represas era um dos meus ídolos.

Depois os Trovante acabaram. Apesar da boa música que alguns deles continuam a fazer, tenho pena ainda hoje.

Comecei a "seguir" o Represas e acho que nos seus primeiros anos a solo não perdi nenhum dos concertos em Lisboa, e comprei todos os CDs. Era de tal maneira, que a minha Mãe um dia me ofereceu uma moldura com uma fotografia dele. Bem, não foi bem oferecer... Cheguei para passar o fim-de-semana, e tinha o retrato dele na mesa de cabeceira!

Lembro-me de ter ido ao CCB ouvir a Missa Crioula cantada por ele. Isto foi há muitos anos. Talvez há 15. Uma das amigas que ia comigo, era amiga dele, e no intervalo disse-me: "Vou falar ao Luís. Queres vir?" Levantei-me de um pulo, saí do auditório com ela, e, com o coração a bater muito forte, à porta do camarim, desisti, apesar da sua insistência. "Não vou. Acho que me iria portar como uma adolescente", e voltei para trás. Os meus amigos gozaram-me imenso, como imaginam.

Mais tarde, durante a Expo 98, estava no Xafarix, e o meu namorado da altura, que conhecia o Represas e sabia da minha "pancada", chegou à mesa vindo do bar e disse-me: "Está ali o Luís. Eu disse-lhe que tu és fã dele e que te apresentava. Queres ir lá falar-lhe?" Eu não queria, mas ele insistiu tanto... Fui. Ele foi muito simpático. Falámos muito, os dois (o Luís Represas e eu), e rimo-nos bastante. Despedimo-nos. Estava imenso barulho.Voltei para a mesa. Quando me perguntaram o que tínhamos dito, eu não fazia ideia...

Enfim, devo ter feito uma bela figura...

Lembro um concerto fantástico - mas com imenso vento - na Fortaleza de Sagres.

E um outro no Auditório Municipal de Lagos, também com muito frio, que foi verdadeiramente memorável pelo facto de o Luís Represas ter conseguido cantar como nunca, como sempre, apesar dos contornos sui generis que teve: o frio, o facto de a entrada ser gratuita, que fez com que muita gente que lá estava estivesse ali como estaria para ouvir o Marco Paulo..., as velhas com mantas nos joelhos que conversavam animadamente e que tivémos que mandar calar algumas vezes, crianças a dormir em colos, uma outra, mesmo atrás de nós, que a avó pôs a fazer xi-xi mesmo ali na bancada, e o apresentador (ah, pois, havia apresentador), que parecia saído de um "Serão para Trabalhadores" do tempo do Estado Novo, que só dizia disparates tipo "Este artista é um bom artista..."

Para este concerto em Lagos, "arrastei" duas sobrinhas adolescentes, que não estavam muito convencidas. Acharam imensa piada aos pormenores que acabo de contar, divertimo-nos imenso, e ficaram fãs.

Alguns meses depois convidei outra vez a Felipa e a Maria para ir ouvir o Represas. Desta vez ao CCB e o concerto foi fabuloso.

Mas do concerto de que me lembro melhor foi daquele em que o Represas cantou algumas músicas com a Mafalda Veiga. Acho que foi dos primeiros. Eu estava roída de inveja. Era eu que devia estar no palco a cantar com ele. Acho que ainda hoje não me perdoei. Dessa vez arrependi-me a sério de ter faltado a uma audição para aí há 25 anos... Mas isso é outra história.

E agora, que a minha prima Ana faz letras para ele, continuo a gostar da sua voz e de grande parte das músicas, mas o meu coração já não salta. Será da idade?

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

O cuco

Gosto tanto do Dia dos Namorados como dos outros Dias de... Qualquer Coisa, ou seja, nada. Acho que ainda gosto menos deste do que dos outros, devido à verdadeira febre consumista e pirosa que insiste em assolar todas as lojas, todos os centros comerciais, a que muita gente não consegue resistir, e que faz com que haja corações e peluches - ai os peluches... - em quase todas as montras. Os corações, de todas as cores e materiais, enfim, vá lá... Agora os peluches...? Mas quem é que disse que namorados e peluches têm que ver uns com os outros? Então é vê-los, de preferência ursos, com babettes com corações, com vestidos com corações... coitados do raio dos ursos. Deve ser por causa dos parzinhos de namorados adolescentes, que saem da escola de mão dada a falar um com o outro "à bébé" e a tratarem-se por Môr e Fôfinha.

Todos os dias deviam ser dos namorados, dos maridos, das mulheres, dos filhos, dos pais, dos irmãos, dos avós e dos netos, e dos tios e dos primos, dos amantes e dos amigos. E já agora do riso e do sorriso, da gargalhada, da seriedade e da solidariedade... Mas não era preciso para nada decorar montras alusivas a coisa nenhuma... Era só convencermo-nos que todos os dias são dias para viver e não para não-viver.


A propósito, ou não, lembrei-me duma história que alguém me mandou há tempos, e que me divertiu imenso:

"Ontem fui jantar com "A MALTA DOS VELHOS TEMPOS". Jurei à minha mulher que estaria de volta pela meia-noite. Ela não acreditou e eu soltei um:
- Eu prometo!
Mas as horas passaram rápido, o sangue já escasseava no meio do álcool e depressa fiquei com a focagem meio ás voltas... Por volta de 3 da manhã, bêbado que nem um cacho, voltei para casa. Mal entrei e fechei a porta, o cuco no hall disparou e "cantou" 3 vezes.
Rapidamente, percebendo que a minha mulher podia acordar, eu fiz "cu-cu" mais 9 vezes. Fiquei realmente orgulhoso de mim mesmo por ter uma ideia tão brilhante e rápida, mesmo com uma bebedeira de caixão à cova, para evitar um possível conflito com ela.
Na manhã seguinte, a minha mulher perguntou a que horas eu tinha chegado e eu disse:
- Por volta da meia-noite.
Ela não pareceu nem um bocadinho desconfiada. Ufa! Daquela já me tinha safado! Então, ela disse:
- Querido, temos de mandar arranjar o relógio de cuco.
Quando eu perguntei porquê, ela respondeu:
- Bom, esta noite o nosso relógio fez "cu-cu" 3 vezes e depois disse alto "daassssse, tou feito!". Fez "cu-cu" mais 4 vezes, resmungou e cantou "cu-cu" outras 3 vezes e arrotou, deu uma grande gargalhada e cantou mais 2 vezes. Depois deu um encontrão na porta do corredor que estava meia aberta e disse "Puta que pariu". Entrou no quarto, tropeçou no gato, e disse "Merda!"...E só se deitou depois de cair duas vezes ao despir-se...."

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Convite a Mais Palavras

As palavras podem ser assim... aconchegantes.
Não gosto de cadeias, nem de correntes, mas não consegui deixar de responder ao convite da Ana, como fiz aqui em baixo. Desafiou-me depois a convidar mais gente a entrar nesta experiência.
Cá estou a fazê-lo. Estão todos convidados - todos os que sobram dos convites feitos nos diversos blogs.
Experimentem listar 12 palavras, das que mais gostam, aqui nos comentários.
Se gostam de palavras, e da escrita, e dos sons que com elas nos chegam, experimentem. Vão ver que é um exercício bom.
Nós apropriamo-nos das palavras que escolhemos. Ganhâmo-las.
E as palavras escolhidas ficarão certamente orgulhosas.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Palavras

Fui convidada pela Ana, na sua Porta do Vento, para escolher 12 palavras. Foi difícil seleccionar tão poucas, quando gosto de tantas. Depois de alguma reflexão, aqui estão elas:

alquimia
beijo
inebriante
lonjura
maior
maresia
murmúrio
palavra
paisagem
poema
quietude
rumoroso


A fonética é muitas vezes mais importante do que pensamos: salienta o arredondado das sílabas ou os gumes afiados de algumas esdrúxulas, fazendo com que nos apaixonemos por certas palavras, incitando-nos a adoptá-las. Algumas destas palavras, por um motivo ou por outro, deixaram em mim marcas que não quero apagar.


Um murmúrio, indício de uma presença.
Um beijo na quietude da paisagem,
Alquimia inebriante que alastra na maresia.

Na lonjura,
Rumoroso na noite,
Permanece um poema.

Adivinha-se maior que a palavra.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Padre António Vieira - Há 400 anos

"Eu, Portugal, (com quem só falo agora) nem espero o teu agradecimento, nem temo a tua ingratidão. Porque, se me não contas com Daniel entre os vivos, eu me conto com Samuel entre os mortos; se nas letras que interpreto achara desgraças (bem poderá ser que as tenhas), eu te dissera a má fortuna sem receio, assim como te digo a boa sem lisonja. Mas é tal a tua estrela (benignidade de Deus contigo deverá ser), que tudo o que leio de ti são grandezas, tudo que descubro melhoras, tudo o que alcanço felicidades. Isto é o que deves esperar, e isto o que te espera; por isso em nome segundo e mais declarado chamo a esta mesma escritura Esperanças de Portugal, e este é o comento breve de toda a História do Futuro.

Mas vejo que o mesmo nome de Esperanças de Portugal lhe poderá com razão suspender o gosto, assustar o desejo e embaraçar os mesmos alvoroços em que o tenho metido com estas esperanças: Spes qae differtur, affligit animam, disse a Verdade divina e o sabe e sente bem a experiência e paciência humana: ainda que seja muito segura, muito firme e muito bem fundada a esperança, é um tormento desesperado o esperar."

Padre António Vieira, História do Futuro, Tomo I, Capítulo II

“Todos nos cansamos em guardar Portugal dos Castelhanos, e devêramo-nos cansar mais em o guardar de nós. Guardemos o nosso Reino de nós, que nós somos os que lhe fazemos a maior guerra (…) “.
(do “Sermão pelo bom sucesso das nossas armas”, pregado em 1645)

“Sabiamente falou quem disse que a perfeição não consiste nos verbos, senão nos advérbios; não em que as nossas obras sejam honestas e boas, senão em que sejam bem feitas”.
(do “Sermão do primeiro domingo do Advento”, II, pregado em 1650)

Fernando Pessoa, na Mensagem (3.ª Parte, II, 2.º), chamou-lhe "Imperador da língua portuguesa":

“O céu 'strela o azul e tem grandeza.
Este, que teve a fama e à glória tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também”.


E Miguel Torga, em Poemas Ibéricos, definiu-o assim:


Filho peninsular e tropical

De Inácio de Loiola,

Aluno do Bandarra

E mestre

De Fernando Pessoa,

No Quinto Império que sonhou, sonhava

O homem lusitano

À medida do mundo.

E foi ele o pioneiro.

Original

No ser universal...

Misto de génio, mago e aventureiro.

Já no século XVII, Vieira esperava o V Império, e já nessa altura, esperar era "um tormento desesperado". Quatro séculos depois, continuamos, desesperados, à espera.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Distracções (II)

Isto não foi comigo, mas podia ter sido.

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Que começo de dia!

Música no ouvido

Não consigo pôr a música aqui, desculpem lá (mas já consegui pôr um vídeo, hein?).
Mesmo assim não quero deixar de partilhar convosco esta música, que
me foi relembrada pelo meu filho, que passou o fim-de-semana todo a ouvi-la e a cantá-la.
Agora ele já se foi embora, e eu continuo com a música no ouvido.
Ora digam lá se não tem bom gosto?

Let's Get Lost, por Chet Baker


"Let’s get lost, lost in each other’s arms
Let’s get lost, let them send out alarms
And though they’ll think us rather rude
Let’s tell the world we’re in that crazy mood.

Let’s defrost in a romantic mist
Let’s get crossed off everybody’s list
To celebrate this night we found each other, mmm, let’s get lost
Let’s defrost in a romantic mist
Let’s get crossed off everybody’s list
To celebrate this night we found each other, mm,
let’s get lost oh oh, let’s get lost"


Desarrumação

video

Gosto mesmo destes Gato Fedorento!

Este não é dos melhores, mas é o que consegui pôr aqui. E é a minha estreia em vídeos no blog!

Memórias de uma loja (II)

A empresa foi vendida há muitos anos. E as nossas vidas mudaram para sempre.
O Antunes reformou-se entretanto. A Paula, já pelos cinquenta e tais, casou, pela primeira vez, com um industrial do Norte, e pediu transferência para uma das lojas do Porto.

O substituto do Sr. Antunes diz ser gestor e chamar-se Dr. Silva, (sim, ele diz que se chama Dr. Silva) e é casado com a D. Idalette, uma gorda cheia de brincos, pulseiras e anéis, tudo a tilintar, que ele conseguiu pôr a trabalhar na secção de retrosaria, e que passa a vida a falar no “esposo”. O marido da D. Idalette, quando tirou o curso à noite, trabalhava numa loja de acessórios para automóveis. Mas agora, que é gestor, é gerente de uma data de lojas dum ramo completamente diferente. Mas isso não interessa: é gestor. Usa um bigode, daqueles tipo cortina, e já o vi de palito ao canto da boca, a chegar da hora de almoço. Fala com os funcionários como quem diz “Ó pá, alcança-me aí essas escovas limpa-pára-brisas muito jeitosas que chegaram ontem, para desenrascar aqui o freguês”, enquanto coça as partes baixas.

Não consigo entender. Com tanta modernice, tanto certificado de qualidade, como é que a administração pôs este fulano aqui?
Outro dia, parece que levou uma estalada de uma miúda da secção de lingerie, a quem deu um apalpão. Bem feito! Já toda a gente viu como ele olha para as miúdas.
Mas lá anda ele todo ufano, sempre a esfregar as mãos, a convocar reuniões, que raramente servem para alguma coisa, ou a dizer “vou-me ausentar um bocado, mas está tudo sobre controle”, ou “vou fazer um coffeezinho-break”.
E diz que faz muitas coisas, e que a empresa está a fazer muitas coisas, que ninguém sabe o que são. Mas o que vemos são as mesmas lojas, só que agora com funcionários que não se sentem respeitados nem felizes. E que não têm a quem respeitar.

Eu, que sou do tempo do Antunes, figura presente e simpática, que muitas vezes, no Natal ou nos saldos, ajudava na loja, atendendo os clientes, sempre eficiente e correcto, já não tenho muita paciência para estas coisas. Modernices…

Há pouco tempo só me faltavam três anos para a reforma, e agora, com a nova lei, vou sair daqui velha demais para poder estar com os meus netos como gostaria. Lá se vão as idas ao Jardim Zoológico, aos museus, sei lá. Se calhar nessa altura já nem estou bem para pegar no carro e ir com eles até Sintra ou à Ericeira passear. Deus nos dê saúde. O que é se há-de fazer?

A Paula foi substituída por uma lambisgóia género extraterrestre - com um corte de cabelo estranho, à punk, acho eu, madeixas em pé, aos bicos, que usa umas mini-saias do tamanho de cintos largos, sempre de barriga ao léu, e os papos, minha Nossa Senhora, aqueles papos de banha no lombo, sempre a ver-se… Fala de maneira afectadíssima para julgarmos que é “bem”, mas diz “prontos”, “fostes, pá?”, e outro dia disse-me “Depois dê-me fio-de-beque, se faz favor” - deu-me tanta vontade de rir, que nem fui capaz de lhe dizer que é feed-back que se diz, mas também não sei se valeria a pena. Estes badamecos agora têm a mania que sabem tudo…
A lambisgóia, a Vanessa, trata toda a gente por tu, mesmo os mais velhos. Coitada, nem deve ser má pessoa, mas é tão poucochinho! Não sabe nada de nada. Toda a gente goza com ela por isso, mesmo aqueles que não vêem motivo para criticar a maneira como fala. Não sabe falar com os clientes, claro. E fala com eles a mascar pastilha elástica. É completamente desadequada. Até já houve problemas por duas ou três vezes, mas veio de lá o Silva com o ar servil e estúpido que Deus lhe deu, a esfregar as mãos uma na outra, a tentar acalmar as clientes, que, à boa maneira portuguesa, acabaram por baixar armas e ir-se embora, depois de ouvirem enormidades como “A Senhora seja compreensível, a moça é muito nova, mas é a melhor chefe de loja que já tivemos”, ou “Tenha paciência, a moça não fez por mal”.
O Dr. Silva acha a Vanessa fantástica. Toda a gente já percebeu, e a miudagem, os empregados novinhos, aproveitam-se disso. Fazem o que querem e já começam a desleixar-se. Usam as fardas, que até foram desenhadas por um daqueles estilistas da moda, e são giras, como querem: curtas demais, apertadas demais, como a própria Vanessa. Já todos mastigam chiclete a toda a hora, e falam com os clientes de qualquer maneira. Enfim, não há respeito nenhum. E ninguém sabe o suficiente nem para ensinar nem para exigir. Por isso, os nossos clientes mais antigos estão a deixar de aparecer nas secções onde já não empregados da velha guarda como eu.
Há pouco tempo só me faltavam três anos para a reforma, e agora, com a nova lei, vou sair daqui velha demais para poder estar com os meus netos como gostaria. Lá se vão as idas ao Jardim Zoológico, aos museus, sei lá. Se calhar, nessa altura já nem estou bem para pegar no carro e ir com eles até Sintra ou à Ericeira passear. Mas o que é que se há-de fazer? Deus nos dê saúde!

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Em casa

Estou fechada em casa há 5 dias. Ao todo, estive fora, no máximo, 12 horas e 15 minutos: 9 horas no primeiro dia e 3 no segundo, 10 minutos no quarto e 5 minutos hoje, respectivamente no hospital, no médico, numa corrida à farmácia, e, finalmente para tomar um café e comprar o Expresso.
Ou seja, isto tem vindo a melhorar. Com a evidente diferença do teor da minha saída de hoje em relação às dos dias anteriores, posso ter esperanças de ir passear um dia destes.
O meu tempo tem sido passado a tratar da minha mãe, o que faço com muito gosto. Cházinhos, remédios, a cama, que é preciso refazer, esticar, ajeitar as almofadas… No entanto, tratar, neste caso, significa também ser uma dona de casa zelosa e eficiente: tratar das refeições, arrumar a cozinha, pôr roupa a lavar, estendê-la, apanhá-la, tirar a loiça da máquina, arrumar a loiça, arranjar o tabuleiro, etc, etc… et on recomence... Pelo meio de tudo isto, um destes dias, achei que as cortinas do quarto da minha mãe precisavam de ser lavadas. Para o quarto não ficar sem cortinas enquanto se lavavam, resolvi então lavar as do meu quarto, que são iguais. À noite, persianas fechadas, subi ao escadote – e até num escadote tenho vertigens, tirei as cortinas e substituí-as pelas já lavadas. E a minha Maria, que só volta na 5ª feira...
Quem nunca se queixou de trabalhar fora de casa? Quantas vezes desejámos ficar em casa sem fazer nada ?
Mas é possível ficar em casa e não fazer nada ?
Tenho pensado imensas vezes nestes últimos dias nas desgraçadas das donas de casa que têm de fazer tudo isto e muito mais, que não têm sequer Maria, que têm de tratar de tudo, e mais, muitas vezes, de uma ranchada de filhos, de maridos chatos, machistas, brutos, que não fazem nada em casa e ainda por cima as mal-tratam... Afinal, não é assim tão mau estar aqui. Podia ser bem pior.

E a minha mãe está melhor, graças a Deus.

Ah, é verdade. E ainda arranjei tempo para arrumar papelada que ameaçava ganhar vida própria cá em casa. Odeio papéis. Isto é, só gosto de alguns: cartas de amor e cartas de amigos (cada vez menos comuns por culpa dos e-mails), e papéis brancos ou de cores, intocados, daqueles em que apetece mesmo escrever. Odeio cartas de bancos, de seguradoras, da água e da luz e outras que tais. Em primeiro lugar, significam quase sempre despesas. Em segundo lugar, têm a particularidade fantástica de, na maior parte das vezes, dizerem coisas que o comum dos mortais não percebe à primeira. Já cheguei a ir a uma seguradora com uma carta que recebera de lá, pedir para ma traduzirem para português, dizendo que acho inadmissível que a linguagem utilizada seja tão estupidamente impenetrável. Sinto-me burra de cada vez que me escrevem assim. O que sentirá a minha porteira, que diz IMEN em vez de INEM, se receber uma carta daquelas?

A propósito de papéis, lembrei-me do meu trabalho. Aí sim, tenho de ter os papéis em ordem… Mas só vale a pena pensar nisso na próxima 4ª feira, porque 3ª feira é Carnaval e 2ª também não se trabalha. O patrão deu “ponte”. A empresa está muito bem e recomenda-se: não há défice nem problemas de produtividade.

Obrigada, senhor Dr., por eu não ter de gastar um dia de férias depois de amanhã.

E, já agora, se a empresa fosse sua, mesmo sua, e o senhor fosse mesmo o dono, também havia “ponte”?

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

O Menino Jesus


Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?
Alberto Caeiro